Atenção: este texto contém spoilers que revelam o final do filme e de eventos significativos de sua trama. Então, se você ainda NÃO viu o filme, leia o texto abaixo por sua conta e risco.
São muitas as possíveis abordagens que o novo trabalho de Demi Moore nos propõe, como falarmos sobre o preço dos ideais estéticos de uma sociedade consumista, ou sobre as referências que o filme parece fazer às obras de H.P Lovecraft, David Cronenberg (fui só eu que vi homenagem a Videodrome e A Mosca?) e Dario Argento. Mas o filme A substância (The Substance) também se presta a uma abordagem muito mais oculta e “arcana” (isto é, associada aos mistérios do universo e do ser humano), não tanto pelo que mostra, mas por aquilo que esconde.
Neste filme bem gosmento e sangrento, que gira em em torno de duas personagens “gêmeas/gemas”, há um grande personagem oculto, eloquente tanto pela sua ausência como pela sua participação decisiva em toda história. Esse personagem, eu desconfio, atingiu seu objetivo no final, como planejava desde o primeiro momento.

RECAPITULANDO O FILME
(você pode pular essa parte se viu recentemente o filme)
Recapitulando a história de A Substância, a personagem de Demi Moore, Elisabeth Sparkle, é uma ex-celebridade de Hollywood, com fama já apagada na memória do público, que apresenta um programa de TV de atividade física antiquado. Os produtores do programa, representados pelo personagem Harvey (Dennis Quaid meio fanfarrão), não estão satisfeitos com a apresentadora, e estão à procura de uma substituta mais jovem. Após escutar as conversas sobre sua demissão, Elisabeth descobre um tratamento supostamente científico, que promete rejuvenescer e produzir a “melhor versão” possível do cliente.
Esse tratamento produz um novo corpo, mais jovem e saudável, que supostamente teria a consciência de Elisabeth durante sete dias, quando então essa consciência deveria retornar ao corpo envelhecido da atriz e ali permanecer por mais sete dias, e assim sucessivamente. Todo esse procedimento deveria obedecer um protocolo com regras rígidas. Uma das regras é que o corpo novo deveria diariamente se alimentar de um fluido produzido pelo corpo velho. Além disso, uma troca de corpo deveria ser realizada sempre sete dias depois da anterior. Por fim, e mais importante, o cliente deveria se lembrar que, apesar de agora ter dois corpos, era uma só pessoa.

Claro que essas regras, para deleite dos que esperam um show de horrores, não são obedecidas. O corpo da versão mais jovem da atriz, chamada de Sue (Margaret Qualley), não demora em adquirir autonomia e vampirizar o corpo de Elisabeth, deixando para a versão mais velha todo o trabalho de limpar sua sujeira, o que inicia uma guerra entre as duas.
A competição indireta entre as duas culmina em uma confrontação final em que Sue mata Elisabeth naquela que provavelmente é a maior surra geriátrica da história do cinema. Logo em seguida, sentindo no próprio corpo os efeitos de não poder mais se alimentar do fluido da sua vítima, Sue arrisca tudo e toma uma dose remanescente da “substância”, o soro que deveria ter sido utilizado apenas no começo do procedimento. Como resultado, é produzido a partir de Sue um terceiro corpo, uma criatura deformada e pustulenta, chamada de Elisasue.
O que se segue é um banho de sangue de proporções épicas, que culmina em uma estranha cena onde um rosto ou fração de uma cabeça semelhante a Elisabeth se junta à sua estrela na calçada da fama, em Hollywood Boulevard. (Se tem uma lição moral básica nessa história, crianças, é que devemos seguir rigorosamente as prescrições médicas…)

O PERSONAGEM OCULTO
Ressalvadas as lições morais e críticas evidentes a uma sociedade falocêntrica em que a mulher é tratada como um objeto, e mesmo de abordagens menos evidentes mas igualmente interessantes (como o fato de que muitos de nós se confundem com a persona que construíram nas redes sociais), há um personagem, como disse, que está sempre oculto, mas nem por isso é menos importante para a história. Falo “personagem” apenas por conveniência, pois não sabemos se há apenas um ou vários “personagens”, ou mesmo que tipo de “entidade” participa da história mas permanece nas sombras.
Estou me referindo, claro, ao “empreendimento misterioso” que “vende” o tratamento a Elisabeth. Quase nada é dito a respeito da origem da “substância” ou de quem está por trás do tratamento oferecido à atriz. Também não fica claro que benefício esses “personagens” misteriosos têm, pois não parece haver nenhum pagamento pela participação de Elisabeth. Isso sugere que talvez o propósito desse “empreendimento” seja que aconteça tudo exatamente como ocorreu até o fim do filme.
Nesse caso, a intenção desses misteriosos personagens é que tudo dê errado. O ato de impor regras rígidas tem o objetivo que essas regras sejam desobedecidas, para que se produza o resultado dessa desobediência, a “punição”. Basta contar com as fraquezas da natureza humana, suas dúvidas e vaidades, principalmente quando estamos embriagados pela juventude e pela promessa de sucesso.
Os gnósticos do início da era cristã acreditavam que o mito do Jardim de Eva também tinha um personagem oculto, escondido atrás de um disfarçe. O personagem que se apresenta na versão oficial da história do Pecado Original como sendo o próprio “Deus” seria, para o gnosticismo, um “falso-deus”, um dos “arcontes”, que teria colocado Adão e Eva no paraíso e proibido a ambos de provar da Árvore do Conhecimento com o objetivo de que desobedecessem essa proibição. Os gnósticos pareciam estar propondo que a desobediência da regra permitiria o desencadeamento que esses arcontes pretendiam obter.
No filme A Substância, o resultado final é a criatura monstruosa, Elisasue. Trata-se de uma personagem geneticamente instável e deformada, no melhor estilo do cinema de terror lovecraftiano, que é capaz de produzir uma quantidade absurda de sangue. Esse personagem está associado a coisas como hemorragia, deformidade e instabilidade genética, portanto. Em todos os sentidos, é o contrário da vida e da saúde. Representa feiúra, doença e morte.
Mas o que Elisabeth buscava era beleza e vitalidade. A melhor versão de si, para fugir da velhice e do fim de todo e qualquer corpo orgânico.
E o que dá para saber da “empresa” que oferece o “tratamento estético” à atriz? O grupo misterioso oculto por trás da “substância” não tem nome, mas apenas um símbolo como logomarca.
Esse símbolo parece ser um duplo “D”, e talvez seja uma referência às duas gemas de ovo que explicam o procedimento no início do filme, e talvez sugiram que Elisabeth está para ser preparada como uma espécie de alimento. Mas, olhando mais atentamente, a logomarca lembra duas luas.

SOBRE LUAS E ESTRELAS
O símbolo de múltiplas luas é comum nas religiões pagãs e simboliza as três deusas que são uma só, a “Grande Deusa”, senhora do destino humano. Na mitologia grega, a deusa Hecate costumava ser representada por três figuras femininas. Cada uma dessas figuras simboliza uma das fases visíveis da lua, a crescente, a cheia e a minguante. E cada uma dessas fases simboliza também uma fase da vida humana, a juventude, a maturidade e a velhice, respectivamente.
O arcano da lua no tarot é uma carta poderosa e complexa, geralmente associada a mistérios, ilusões, intuição e o inconsciente. Representando o arquétipo do desconhecido e do oculto, a Lua sugere que nem tudo é o que parece, e que a realidade pode estar obscurecida por enganos ou ilusões. Ela indica um momento de confusão ou de emoções ocultas, onde as verdades podem estar nas sombras, necessitando de exploração. Esse arcano também alerta contra os perigos do autoengano ou de ser influenciado por medos e ansiedades inconscientes.
No símbolo do grupo misterioso não há a lua cheia, só duas luas “parciais”. Falta a fase da maturidade, portanto. E a gente vê mesmo que as duas personagens conflituosas, Sue e Elisabeth, apesar de uma ser jovem e outra ser uma mulher madura, agem como crianças. A sua rivalidade e as armadilhas em que ambas caem só podem ser atribuídas a um ponto de vista muito infantil sobre a vida.

O arcano A Lua convida a conhecermos os aspectos sombrios da nossa própria natureza. Mas, no filme, a escuridão serve apenas como esconderijo de corpos descartados. Quando não fazemos amizade com nosso lado sombrio, quando nos agarramos aos holofotes deste mundo a todo preço, sem deixar que as luzes se apaguem para que novas luzes se ascendam no futuro, a luz que se mantém acesa de modo artificial dá origem a uma forma aberrante. O apego infantil às vaidades deste mundo produz não o oposto da luz, a fase de lua nova, mas uma luz deformada por uma escuridão que não teve espaço para se manifestar.
Na lua nova, a escuridão está na lua envolta em sombras. Mas é nessa fase que as estrelas brilham mais visíveis, já que não concorrem com o luar. O último de gesto de Elisasue é emoldurar o rosto de Elisabeth, ambulante e cheio de “tentáculos” gosmentos, na estrela de cinco pontas na calçada da fama. O problema é que uma estrela verdadeira não está na calçada, seu ambiente é o oposto do chão, é o firmamento.

A estrela de cinco pontas, ou “pentagrama”, é associada às cinco extensões do corpo humano (dois braços, duas pernas e a cabeça) e aos cinco sentidos humanos (tato, olfato, paladar, audição e visão). Por isso simboliza o mundo material, ou a relação do espírito com esse mundo material. Quando olhamos a face da atriz emoldurada na estrela da calçada, fica difícil não associar a cena à famosa pintura da cabeça da medusa de Caravaggio, a criatura grega lendária que transformava seres vivos em pedra, isto é, em coisa. No filme, o que resta de Elizabeth é mesmo uma coisa. Mas, diferentemente da cabeça decepada de outro personagem da mitologia grega, Orfeu, que continuava a cantar para deleite dos ouvintes, a face da atriz não permanece sendo admirada e reconhecida, mas é aniquilada.

A estrela na calçada já estava no início do filme. Sua criação é mostrada em detalhes. Parece que o fim do filme, e o propósito do grupo misterioso, estava sendo anunciado no seu início. A construção de uma prisão que começa com uma forma que imita o que está nos céus. E era assim mesmo que os gnósticos resumiam o objetivo daqueles “arcontes”. Para o gnosticismo, o objetivo dessas entidades seria, através da imitação de uma “imagem celestial”, atrair e capturar uma centelha da essência divina.
Assim, os gnósticos acreditavam que o ser humano teria sido criado com esse propósito pelos “arcontes”, isto é, como uma imitação das coisas que estão no mundo superior, para conter uma centelha imortal e divina dentro de seu corpo. Não é difícil comparar os ciclos de sete dias que devem ser observados rigorosamente durante o uso da “substância” com um processo de reencarnações contínuas destinado a dar errado, para o proveito dos “arcontes”, que obtém o aprisionamento de uma centelha da luz de Deus. Por coinscidência, o sobrenome da protagonista de A Substância é “Sparkle”, palavra que significa “centelha” em inglês.
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